Educomunicação: Gestão de Processos

Ismar de Oliveira Soares é jornalista, doutor em Comunicação pela ECA/USP, com Pós-Doutorado junto a Marquette University, WI, USA. É pesquisador FAPESP, do campo da “Educomunicação”, coordenador do NCE - Núcleo de Comunicação e Educação da Escola de Comunicações e Artes da USP. É Vice-presidente do World Council for Media Education, com sede em Madrid, Espanha, membro do Pontificio Conselho para as Comunicações Sociais do Vaticano, presidente da UCIP - Union Catholique International de la Presse com sede em Genebra, Suiça, supervisor geral do Educom.TV – curso a distância para 2500 professores de 1024 escolas da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo (2202). Ainda é supervisor do Projeto Educom.rádio – curso presencial para 12 mil entre professores, alunos e membros das comunidades educativas, num projeto contratado pela Prefeitura de São Paulo (2001-2004). É supervisor geral do Educom.rádio.centro-oeste que atendendo 2500, entre professores, alunos e membros das comunidades educativas de 70 escolas dos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, num projeto desenvolvido junto ao MEC (2004).
Nesta entrevista, Ismar fala do acompanhamento do NCE aos projetos e pesquisas desenvolvidos na área de educomunicação em todo o território nacional. Relembra o percurso das reflexões à cerca da aproximação das áreas da Comunicação e Educação desde os anos 60 e 70, passando pela Comunicação Popular e Alternativa e pela leitura crítica da mídia. Outro ponto de destaque na entrevista é a preocupação do Núcleo de Comunicação e Educação de que o termo “educomunicação” seja utilizado para mascarar uma realidade de marketing educacional.
Aprendaki – A partir dos anos 90 a Educomunicação começa a se constituir enquanto área de intervenção social e pesquisa. Mas qual o seu percurso anterior?
Ismar de Oliveira Soares – Na verdade o que aconteceu foi que a universidade representada pelo Núcleo de Comunicação e Educação da USP detectou a existência de um fenômeno na sociedade que vinha se desenvolvendo a partir dos anos 60 e 70. Era o fato de pessoas das mais diversas áreas terem percebido que grandes temas para a sociedade, inclusive a democracia, questões raciais e ecológicas estavam fora da pauta da mídia e também da pauta da escola. Essas pessoas passaram a descobrir caminhos alternativos para tratar desses assuntos e houve uma conjugação de vários elementos e fontes referenciais, inclusive do pensamento freiriano (Paulo Freire) de uma comunicação dialógica ou de uma educação que levasse em conta uma comunicação mais aberta. Nesse sentido, surgiu também uma visão de Gramsci (Antonio Gramsci) no sentido do professor e comunicador se colocar como intelectual orgânico em condições de influenciar as políticas públicas na área dos direitos humanos. Foram forças que se conjugaram para realização de experiências no campo da comunicação alternativa, por exemplo, ou de uma educação popular – expressões mais usadas nos anos 80. E somando-se a tudo isso, a preocupação da chamada leitura crítica da mídia fez com que se percebesse que algo diferenciado estava surgindo e o nome “educomunicação” foi atribuído a esse fenômeno. Na verdade é um nome que já existia para significar educação para mídia e foi ressemantizado para indicar esse conjunto de ações voltadas para o uso dos meios de comunicação sempre estação de gestão democrática para promoção dos direitos humanos, especialmente, o direito à expressão.
Aprendaki – Hoje o NCE tem a preocupação que o termo seja utilizado para mascarar uma realidade de autoritarismo, de tradicionalismo…
Ismar – Sim, o Núcleo de Comunicação e Educação, como identificou uma realidade e deu nome a ela – com a própria universidade – está dizendo que o termo tem um significado, tem uma semântica que é fiel aos fenômenos observados. No caso, a educomunicação não está designando o uso das tecnologias simplesmente como fator para melhoria da performance do instrutor, do professor. Esse é um capítulo que não entra na educomunicação. Para a educomunicação, a tecnologia está a serviço da comunidade educativa, do professor, do aluno e de outros membros da comunidade numa gestão participativa desse processo. Então, temos receio que o marketing educacional use o termo “educomunicação” para designar antigas, tradicionais e velhíssimas práticas de manipulação ou simplesmente de transmissão vertical de informações bancárias de um público para outro. A educomunicação se afasta completamente da educação chamada bancária, designada por Paulo Freire. A nossa perspectiva sempre é a construção dialógica. Então, a educomunicação resgata, por exemplo, o conceito de educação construtivista. Somos construtivistas e somos dialógicos, obedecendo aos parâmetros de Paulo Freire com relação a suas metas para a educação.
Aprendaki – O Núcleo de Comunicação e Educação hoje é referência em nível nacional e internacional, mas realiza parcerias para ampliar sua área de atuação. Como está hoje essa questão?
Ismar – O trabalho do Núcleo tem sido um trabalho de intervenção em termos de assessoria. Então, trabalhamos com redes públicas, como a rede municipal de educação do município de São Paulo, as redes estaduais de educação como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. Trabalhamos com o MEC na Secretaria de Educação a Distância. Também com o Ministério do Meio Ambiente no programa de educomunicação sócio-ambiental. Trabalhamos também com a Fundhas – que é uma fundação da região do Vale do Paraíba-SP. Esse trabalho é estritamente de caráter universitário, isto é, estamos socializando resultado de pesquisas, fazemos intervenção de uma prática educativa que por sua vez produz pesquisas. Nesse momento, estamos com as três primeiras teses baseadas em dados que foram colhidas dos programas e projetos realizados; outras seguirão, pois já temos mais ou menos, dez teses projetadas para esses dois anos subseqüentes. Então, a universidade cumpre um papel de produzir conhecimento, socializá-los e retomar as intervenções com novos dados. E aí, caberá à sociedade, à universidade, às organizações não-governamentais, fazer uso desse acervo de informação para transformação o que se pretende. Então, a universidade não pode ter compromisso com partido político, com tipo de governo. Ela faz políticas públicas. E no caso, ela, está sempre aberta ao diálogo. A metodologia do Núcleo tem sido a metodologia educomunicativa porque sempre que leva um projeto, ela dialoga sobre o mesmo e realiza aquilo que, em comum acordo, é possível ser realizado no espaço público.
Aprendaki – Como é que o senhor avalia o crescimento da educomunicação em nível nacional?
Ismar – O crescimento tem sido em nível exponencial. Se medirmos isso pelas referências no Google (buscador de Internet) há três anos havia mil referências e agora, em abril de 2007, está com 97 mil. Essa referência cresce também em língua espanhola e está crescendo um pouco em língua inglesa, mas basicamente, é um fenômeno brasileiro e latino-americano que está sendo dialogado agora com o restante do mundo. Porém, há experiências educomunicativas nos Estados Unidos – especialmente na Costa Oeste, na Índia, na África, de pessoas que são protagonistas, pioneiras de processos. E através do Fórum Mundial de Mídia na Educação, chamado “Summit Midia for Children” essas experiências acabam sendo socializadas, se divulgando. Há diálogos possíveis a acontecer proximamente com a Espanha e com a França. Então, é uma ampliação desse diálogo.
Aprendaki – Quais as perspectivas para o Brasil?
Ismar – A primeira perspectiva é a criação na USP (Universidade de São Paulo) de uma licenciatura em Educomunicação. Nós imaginamos que quando a USP criar o seu primeiro curso, outras universidades vão tomar a coragem de avançar nesse campo. Por outro lado, em termos de linhas de pesquisas, tivemos 55 defendidas nos últimos seis anos na interrelação comunicação e educação, tomando os referenciais do NCE como ponto de partida. Isso significa a consolidação de um campo, consolidação acadêmica e consolidação pedagógica.
Aprendaki – Essas pesquisas são de especialização a doutorado?
Ismar – Ah, sim, de especialização a doutorado. São distintos níveis e sempre trabalhando com a análise de propostas concretas que se realizaram e foram discutidas academicamente.
Aprendaki – A parceria com o MEC está sendo o quê especificamente?
Ismar – Dois projetos. Um foi chamado EDUCOM.TV que foi uma proposta para dois mil professores sobre linguagem áudio-visual para o Estado de São Paulo através de uma plataforma virtual em 2002. A outra proposta chamada MÍDIAS NA EDUCAÇÃO em que o MEC atende a dez mil professores e nós produzimos módulos sobre rádio. E estamos cuidando também da tutoria de dois mil professores no Estado de São Paulo. Então, é um diálogo em que através desses projetos, podemos estar explicitando as nossas pesquisas e formando pessoas no espaço nacional com a legitimidade que oferece a marca/logo “MEC” e a preocupação do governo federal nesse campo.




