SEED: diálogo com a sociedade em fase de expansão da EAD

Carlos Eduardo Bielschowsky é Secretário de Educação a Distância (SEED) do Ministério da Educação (MEC). Sua formação acadêmica concentra-se na área de Física com Doutorado pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, Mestrado pela PUC-RJ, Bacharelado pela PUC-RJ. Foi professor adjunto do Instituto de Química da UFRJ e coordenador do grupo de pesquisa “Grupo de Espectroscopia Teórica” do departamento de físico-química do Instituto de Química da UFRJ.
Sua produção científica encontra-se em cerca de 45 artigos em revistas internacionais nas áreas de físico-química, em 50 resumos em anais de congressos, além de artigos de divulgação nas áreas de Avaliação Institucional e Educação a Distância.
Sua trajetória profissional passa por importantes projetos nacionais. Participou do planejamento e implementação do CEDERJ; das discussões de criação do Sistema Universidade Aberta do Brasil (SEED); da elaboração e acompanhamento do programa de Consolidação da Infra-Estrutura Acadêmica das IFES e HU’S (SeSu/MEC); da comissão do PAIUB (Programa de Avaliação Institucional das Universidades Brasileiras (Sesu); do programa de Informatização das Universidades Públicas Brasileiras (Sesu).
Foi presidente da comissão de “Avaliação Institucional da UFRJ”; coordenador do projeto que implementou 55 LIG’s (Laboratório de Ensino de Graduação da UFRJ), do Projeto UFRJ Interativa; membro da comissão organizadora de dois Simpósios Brasileiros de Química Teórica; e membro fundador da UNIREDE tendo participado do comitê gestor. Idealizou e organizou o I ESUD – Encontro Brasileiro de Educação Superior a Distância (2002).
Em entrevista por telefone, o professor Carlos Eduardo falou com o Aprendaki sobre o crescimento do Ensino a Distância (EAD) no país, os motivos que leva alguém a procurar um curso de graduação a distância, da qualidade dessa modalidade de ensino e das providências que o Ministério da Educação (MEC) está tomando para garanti-la. Não deixa de mencionar os debates que a SEED/MEC tem tecido com a Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED), uma sociedade civil que tem apontado os desafios e se aliado à Secretaria para promover a EAD no Brasil.
Aprendaki – Como o senhor tem visto o crescimento da modalidade de Ensino a Distância – EAD – no Brasil?
Carlos Eduardo Bieslchowsky – A educação a distância no Brasil está em processo de crescimento muito rigoroso. No ano 2000 eram em torno de mil alunos. Em 2008 fechamos o ano com 750 mil de graduação e agora temos quase um milhão de alunos, tanto no público quanto privado.
A Universidade Aberta do Brasil tem 86 instituições – federais, estaduais e institutos federais – distribuídas em 550 polos focados na Formação de professores e na gestão pública. São 140 mil graduações e especializações da UAB. Em novembro, acontecerá o “I Encontro Internacional do Sistema Universidade Aberta do Brasil” para discutir e avaliar todo o processo desse sistema.
Em termos gerais, temos mais de três milhões de brasileiros que utilizam a Educação a Distância, sendo que um milhão só na graduação. É, portanto, um crescimento generalizado no Brasil que, segue uma tendência mundial.
Aprendaki – Em sua concepção o que leva uma pessoa a procurar a graduação por meio da modalidade a distância?
Carlos Eduardo Bieslchowsky – Na Graduação temos observado três motivos. Pessoas que não contam com o ensino superior no local onde residem. O segundo motivo refere-se a pessoas que trabalham e buscam a modalidade por flexibilidade para estudar. O terceiro motivo tem nos surpreendido bastante, pois trata-se de pessoas que buscam a EAD porque gostam do processo de construção do conhecimento mais autônomo e do respeito que essa modalidade tem demonstrado com estudante.
Aprendaki – É fato: a EAD cresce muito. E a qualidade?
Carlos Eduardo Bieslchowsky – É importante que essa modalidade de ensino cresça com qualidade. Para isso, estamos com uma equipe de 440 colaboradores andando pelos polos. Seu objetivo é conversar com os alunos e coletar materiais, pactuar com as instituições em vista dessa melhoria da qualidade. Até hoje estamos conseguindo manter essa qualidade. Tivemos uma baixa que é o caso da Unitis que precisamos pedir o descredenciamento porque não conseguimos alcançar o padrão mínimo de qualidade.
Aprendaki – O MEC por meio da Secretaria de Educação a Distância (SEED) tem dialogado com a Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED)? Como é o relacionamento?
Carlos Eduardo Bieslchowsky – A ABED é uma sociedade científica. Por esse motivo tem direito a ter uma visão crítica sobre todas as ações, inclusive sobre as ações do MEC. Por conta disso, ela faz uma análise do que está acontecendo. Consideramos isso saudável, e portanto, nosso relacionamento é bom. Representantes da SEED estão sempre participando dos eventos, pois acreditamos que é bom para o Brasil ter uma sociedade científica que discuta os temas da EAD, aponte suas críticas e dê sua contribuição. Isso é positivo.
Aprendaki – O presidente da ABED, professo Frederic M. Litto tem tecido constantes críticas em relação às políticas do MEC, de maneira específica à regulamentação governamental que ele considera excessiva. Como o senhor e o MEC veem isso?
Carlos Eduardo Bieslchowsky – Como sociedade civil, o professor Litto e a ABED têm o direito de tecer crítica. Os últimos posicionamentos do professor Litto têm sido no sentido de entender que é importante que se faça um processo de qualidade à educação. Porém, existem alguns aspectos que não podemos abrir mão como é o caso do polo presencial equipado com biblioteca física e laboratório que dê suporte ao aluno, pois há alunos que não têm acesso à internet por meio de banda larga. É questão de justiça social oferece acesso de qualidade a esses alunos nos polos.
Não temos dúvida de que seja necessária uma biblioteca física para o aluno, pois de maneira geral o aluno não gosta de ficar lendo na tela do computador. Imaginemos uma pessoa que trabalha diariamente com computador ou internet e ainda tenha que ler livros na tela do computador, sem poder levar o livro no carro. A biblioteca física é um direito do estudante. Ele precisa ter biblioteca, precisa consultar livros, mesmo tendo todo o material do curso disponível na internet.
Aprendaki – SEED e ABED, poderíamos dizer que são duas faces de uma mesma moeda?
Carlos Eduardo Bieslchowsky – Existem pontos de divergências, mas não são duas faces da mesma moeda, pois os interesses sãos os mesmos. Tenho percebido colaboração da ABED, inclusive o professor Litto me solicitou alguns problemas que estamos encontrando e ele tem sido colaborativo em relação a isso. Todos lutamos pela qualidade de educação.
Temos bom diálogo com a ABED, pois ela ajuda a construir a questão da qualidade, apesar de ter posições diferentes em alguns pontos. Nesse diálogo a gente vai construindo.
Constantemente, sentamos dialogar com a ABED enquanto sociedade científica e estamos aprendendo muito. Lutando juntos para a melhora da qualidade da educação a distância.
Aprendaki – Como tem sido o posicionamento da SEED em relação ao preconceito para com o título obtido por EAD, como o caso do Conselho Regional de Biologia do Estado do Rio de Janeiro?
Carlos Eduardo Bieslchowsky – É completamente ilegal a posição assumida pelo Conselho Regional de Biologia do Estado do Rio de Janeiro e, por este motivo, já entramos na Justiça. Em conversa, o Conselho assumiu essa posição ilegal que é fruto de sua incapacidade de separar o curso de biólogo do licenciado. É uma deficiência histórica dessa separação por não ter conseguido modernizar sua regulação. Aceita o titulo de biólogo licenciado presencial, mas não aceita o título do licenciado a distância.
Essa deficiência de separação de currículo do biólogo e do licenciado é um processo que eles expressaram em várias reuniões e que curiosamente, em vez de resolver esse problema, resolveram não deixar que os alunos de educação a distância licenciados recebam atribuição de biólogo. Isso é ilegal. Depois de tentar chegar num acordo e não obtendo resposta, entramos judicialmente contra essa posição, exigindo que o Conselho mantenha a mesma posição para o presencial e para a distância.
Também o Conselho Regional de Profissionais do Serviço Social do Rio de Janeiro que manifestou o preconceito, está sendo analisado. Em linhas gerais foram apenas esses casos. O mercado está aceitando bem o profissional formado pela EAD, por estarem tendo o mesmo desempenho no ENADE (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) e excelente desempenho profissional. O MEC não aceita qualquer discriminação.
* Esta entrevista é parte integrante da reportagem “Estudar pelo computador exige comprometimento e determina o aluno de sucesso”
Confira, clicando aqui!
** Foto – cedida pela SEED/MEC; crédito: Zenite Machado – Folha Dirigida